Da Chiquitania ao mundo: a pesquisa boliviana impacta a saúde global

O Centro NIHR LatAm na Bolívia da Universidade Franz Tamayo, Unifranz, marca um marco na pesquisa em saúde global com a publicação de um estudo na revista indexada BMJ Global Health. Esse feito posiciona o centro como um ator-chave na geração de conhecimento científico a partir da América Latina para o mundo.
O artigo, intitulado Understanding the community management of long-term physical and mental health conditions in Bolivia, Colombia and Guatemala: a situational analysis (Compreender a gestão comunitária das condições de saúde física e mental de longo prazo na Bolívia, Colômbia e Guatemala: uma análise situacional), aborda um dos maiores desafios da saúde pública. As doenças não transmissíveis e os transtornos de saúde mental representam uma carga crescente em países de renda média e baixa.
“Estamos muito satisfeitos porque, após um trabalho árduo, conseguimos realizar uma publicação em uma revista científica na qual abordamos temas muito importantes. Essas doenças representam uma das principais cargas para a saúde em nível global e nacional”, afirmou Ronald Tapia, co-investigador do projeto e investigador principal do NIHR na Bolívia.
Em nível mundial, mais de 17 milhões de pessoas com menos de 70 anos morrem a cada ano devido a doenças não transmissíveis, e 86% dessas mortes ocorrem em contextos semelhantes ao da Bolívia. Esse cenário evidencia a urgência de gerar soluções sustentáveis e adaptadas às realidades locais.
Nesse contexto, a pesquisa propõe uma abordagem baseada em intervenções comunitárias que fortalecem o bem-estar a partir dos próprios contextos sociais. Essas estratégias priorizam o uso de redes familiares, práticas culturais e recursos comunitários existentes.
O estudo foi desenvolvido por pesquisadores do Centro NIHR LatAm na Bolívia, em colaboração com equipes da Colômbia e da Guatemala. Por meio de uma análise situacional, foram exploradas as dinâmicas, barreiras e oportunidades no atendimento de doenças crônicas e de saúde mental.
A metodologia combinou ferramentas quantitativas e qualitativas para compreender o funcionamento dos sistemas de saúde. Foram incluídas pesquisas, análise de dados e entrevistas com profissionais de saúde, pacientes, cuidadores e líderes comunitários.
Entre os principais achados, identificaram-se barreiras como a burocracia, os longos tempos de espera e a limitada disponibilidade de especialistas. Essas dificuldades afetam de maneira mais crítica populações vulneráveis e comunidades remotas.
O estudo concentrou-se em San José de Chiquitos, na região da Chiquitania, onde foram identificadas oportunidades-chave para o desenvolvimento de intervenções comunitárias. Elementos como cultura, esporte, dança e tradições locais emergem como ferramentas valiosas para promover a saúde.

Ronald Tapia é co-investigador do projeto e investigador principal do NIHR na Bolívia.
“A saúde não se compõe apenas de atendimento em um consultório médico; a tendência mundial caminha para a saúde comunitária. O modelo atual está evoluindo para além da atenção clínica tradicional”, afirmou Tapia.
Da mesma forma, destacou a importância de gerar conhecimento a partir do contexto local. “Quando produzimos nossa própria informação, podemos adaptar nossas políticas de saúde à nossa realidade e alcançar resultados mais eficazes”, enfatizou o pesquisador.
Por sua vez, Lucia Alvarado, project manager do Centro NIHR LatAm na Bolívia e integrante da equipe de pesquisa, destacou o valor do processo por trás da publicação. Explicou que o percurso incluiu aprendizados e revisões editoriais.
“Este não é um resultado recente; trata-se de um processo de melhoria contínua que também evidencia as dificuldades para dar visibilidade a pesquisas produzidas na América Latina. A publicação em uma revista de alto impacto permite posicionar a produção científica regional”, afirmou Alvarado.
A cientista também ressaltou a relevância institucional do feito em termos de padrões internacionais. Indicou que a publicação contribui para indicadores acadêmicos vinculados a sistemas de indexação como Scopus e fortalece a projeção internacional.

Lucia Alvarado é project manager do Centro NIHR LatAm na Bolívia.
A equipe de pesquisa foi composta por Lucia Elena Alvarado, Estela Tango Camargo, Shirley Nicole Andrade, Patricia Cabaleiro, James Yhon Robles, Luis Felipe Osinaga e Ronald Tapia (equipe Bolívia), juntamente com outros pesquisadores de destaque do Reino Unido, Colômbia e Guatemala. Seu trabalho reflete um esforço colaborativo, interdisciplinar e de alcance regional.
A publicação na BMJ Global Health valida a qualidade científica do estudo e amplia seu alcance para a comunidade acadêmica global. Esse tipo de conquista posiciona o Centro NIHR LatAm na Bolívia como uma referência em pesquisa em saúde global.
Esse marco também evidencia o compromisso da Universidade Franz Tamayo, Unifranz, com a pesquisa científica como pilar de seu modelo educacional. Por meio de iniciativas como esta, fortalece-se a geração de conhecimento com impacto social e projeção internacional.

Catálogo Arte e Cultura é um produto do NIHR
O Centro NIHR LatAm na Bolívia faz parte de uma iniciativa internacional financiada pelo Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Cuidados do Reino Unido, que articula a Universidade Franz Tamayo, Unifranz, com instituições acadêmicas de alto prestígio, como a Queen Mary University of London, a Pontificia Universidad Javeriana e a Universidad Rafael Landívar.
Essa rede colaborativa impulsiona pesquisas na Bolívia, Colômbia e Guatemala com o objetivo de gerar evidências científicas robustas, formar pesquisadores e desenvolver soluções sustentáveis em saúde, especialmente em doenças não transmissíveis e saúde mental, com ênfase em comunidades vulneráveis.
Como parte desse processo investigativo, o Centro NIHR LatAm na Bolívia apresentou, no ano passado, um inovador catálogo de mapeamento cultural desenvolvido em San José de Chiquitos, que identifica recursos como arte, dança, esporte e tradições locais como ferramentas para a promoção da saúde.
Esse catálogo, construído em conjunto com as comunidades, busca integrar a cultura nas estratégias de atenção, evidenciando que intervenções baseadas em identidade e participação comunitária podem melhorar o bem-estar e complementar os tratamentos de doenças crônicas e de saúde mental.
Leia a publicação do artigo completo no seguinte link: https://gh.bmj.com/content/11/3/e020466