BoCC e Unifranz apostam na certificação gastronômica como estratégia turística

BoCC e Unifranz apostam na certificação gastronômica como estratégia turística

No Carnaval de Oruro, patrimônio da humanidade, já não se dança e canta apenas; agora também se degustam iguarias certificadas. A recente capacitação e certificação de 28 restaurantes e empreendimentos gastronômicos de Oruro marca um antes e um depois na forma como a Bolívia compreende o turismo gastronômico: já não basta oferecer pratos saborosos, é imprescindível garantir segurança, profissionalismo e experiência.

“Essas certificações são extremamente importantes para o turismo gastronômico. Qualquer empresa ou empreendimento que esteja iniciando na área deve ter um excelente manejo da inocuidade alimentar e das BPM (Boas Práticas de Fabricação). Para os turistas, isso é uma questão de confiabilidade”, afirma Alison Cruz, diretora do curso de Gastronomia da Unifranz, braço acadêmico do Bolivian Culinary Center (BoCC).

O Programa do Sistema de Qualidade Turística Boliviano – Boas Práticas, promovido pelo Estado boliviano com o apoio de aliados estratégicos como o BoCC e a Universidade Franz Tamayo (Unifranz), busca algo mais profundo do que um selo na porta. Pretende transformar a gastronomia em um produto turístico confiável, competitivo e exportável.

“É um privilégio iniciar em Oruro o programa boliviano de certificação em qualidade turística. Esses 28 espaços gastronômicos são os primeiros na Bolívia a receber essa certificação. Não se trata de um selo concedido ao acaso; foi conquistado com uma capacitação intensiva e integral”, afirma Sumaya Prado, vice-ministra de Gastronomia da Bolívia.

Quando a qualidade se torna destino

“Na Bolívia temos os ingredientes da biodiversidade, a história, a cultura e os sabores, mas ainda nos falta um pouco de trabalho. Por isso, este projeto não se trata apenas de cozinhar, mas de compartilhar ferramentas e protocolos de gestão moderna e transformar esses estabelecimentos em embaixadores turísticos”, afirma Gabriel Ágreda, diretor do BoCC.

A tendência mundial do turismo demonstra que a experiência do visitante já não depende apenas do sabor de um prato, mas de todo o sistema que o envolve. O sabor, o atendimento e a segurança são fruto de um processo completo, desde a forma como um ingrediente é armazenado até como o local é evacuado em uma emergência.

Por isso, explicou Prado, os 28 estabelecimentos passaram por um rigoroso processo de formação implementado pela consultoria Gateway. A capacitação incluiu boas práticas de manipulação de alimentos, higiene, atendimento ao cliente, gestão administrativa, prevenção de incêndios, controle de estoques e negociação com fornecedores.

Os estabelecimentos certificados oferecem uma proposta gastronômica ampla e diversa, na qual se evidencia a presença de pratos tradicionais de Oruro, vinculados ao seu patrimônio alimentar, juntamente com uma oferta que inclui charque, carnes grelhadas, embutidos, cordeiro, salteñas, sanduíches, hambúrgueres, pizzas, confeitaria, entre outros.

Não apenas os restaurantes e empreendimentos foram certificados, mas também mais de 120 trabalhadores foram capacitados e receberão certificações individuais. “Isso vai marcar uma diferença”, afirmou Prado, destacando que o programa aspira tornar-se um modelo nacional.

Confiança, visibilidade e mais receitas

Para os restaurantes, a certificação não é um trâmite burocrático, mas uma ferramenta de crescimento. Assim explica Cruz, diretora do curso de Gastronomia e Artes Culinárias da Unifranz.

“A certificação nos ajuda com a visibilidade do empreendimento e, sobretudo, com a confiança. O cliente entende que aquele negócio é salubre, que trabalha com padrões e que respeita a saúde e a segurança das pessoas.”

No turismo, a confiança é determinante. Por exemplo, um visitante estrangeiro que chega a Oruro durante o Carnaval não busca apenas dançar ou tirar fotografias; ele deseja comer com segurança, desfrutar dos sabores locais sem riscos e levar consigo uma lembrança positiva do país.

“Para os turistas, isso é uma questão de confiabilidade e segurança alimentar”, enfatiza Cruz.

A equação é clara: mais confiança resulta em mais clientes e, consequentemente, em mais receitas. Um restaurante certificado posiciona-se melhor, ganha reputação e passa a integrar o circuito de consumo turístico.

Patrimônio que também se certifica

“Nossa gastronomia é belíssima, com tanta história e tanta cultura, que é gratificante poder oferecer ao exterior tudo o que sabemos sobre nossa identidade. É patrimônio cultural”, afirma Cruz.

Quando um prato tradicional é servido em um espaço certificado, converte-se em um embaixador cultural, demonstrando ao mundo que a Bolívia não possui apenas sabores únicos, mas também padrões internacionais de qualidade.

No Carnaval de Oruro — onde convergem visitantes de todo o planeta — essa articulação entre cultura, gastronomia e qualidade é essencial para que a experiência seja completa.

“Do BoCC estamos convencidos de que a gastronomia é essencial para construir a Bolívia. Para conhecer um país, não basta pisar em seu solo; é preciso prová-lo. A cozinha não é apenas pratos saborosos, é ciência, gestão e identidade”, afirma Ágreda.

Profissionais para um novo turismo

Nesse cenário, destaca-se o papel da academia. A Unifranz, que recentemente lançou o curso de Gastronomia e Artes Culinárias, vê nessas certificações uma extensão natural de sua missão.

“Não se trata apenas de aprender a cozinhar. Nossos estudantes precisam aprender a pesquisar, conhecer nossas raízes, dominar estratégias de marketing e saber difundir internacionalmente a cultura boliviana”, sustenta Cruz.

Os futuros chefs e gestores gastronômicos não apenas criarão pratos: serão guardiões da qualidade, responsáveis por auditar, certificar e elevar os padrões do setor.

“Nossa missão é elevar o nível da gastronomia boliviana em cada lugar onde o fogo esteja aceso, e buscamos fazê-lo por meio da formação, da inovação, da pesquisa e do empreendedorismo”, afirma Ágreda, desde o BoCC.

A certificação dos 28 restaurantes de Oruro não é um fato isolado. Trata-se de um projeto-piloto nacional que demonstra que a gastronomia pode e deve ser parte estrutural do turismo. Em Oruro, o primeiro passo já foi dado. Agora, o desafio é levar esse modelo a todo o país, para que cada prato boliviano servido ao mundo seja não apenas delicioso, mas também seguro, profissional e digno de sua riqueza cultural.